Muito se fala da estética dura e marcadamente fria do período soviético, mas pouco se sabe da união imagética entre Cuba e a extinta União Soviética. O clássico Soy Cuba (1964), de Mikhail Kalatozov, vai além dos temores que circundavam a Guerra Fria. O mais curioso sobre o filme é que só foi exibido em Havana e Moscou, o que o manteve desconhecido pelo resto do mundo até os anos 90, quando os diretores Martin Scorsese e Francis Ford Copolla o recuperaram, agitando a imprensa mundial.
Soy Cuba é, sem sombra de dúvida, o filme mais atingido pelo isolamento imposto a Cuba pelos Estados Unidos. Mas é também uma película repleta de plasticidade e ousadia, mesmo no fértil momento do cinema da década de 1960.
Em plena guerra dos mísseis, o governo soviético enviou o diretor Mikhail Kalatazov e uma equipe de pré-produção - que incluía diretores de fotografia, maquinistas - para rodar “o grande filme cubano”. A história é ambientada em quatro recortes, começando com a Cuba pré-revolucionária, sem diálogos. O ritmo do filme é contemplativo, lento, e é aí que ganha sua força histórica e estética.
Soy Cuba foi patrocinado com fins ideológicos, mas acabou se tornando uma das maiores obras-primas da história do cinema com a pior audiência possível, o que provou ser este um testemunho maior do que a Guerra Fria. Por um lado, a produção não serviu aos propósitos do regime soviético por não ser “comunista o suficiente”, além de “experimental em demasia”. Já os americanos o consideravam comunista demais, por isso foi impedido de ser veiculado em seu território e em países aliados. Dentro de Cuba, a reação foi de resistência, por ter sido tachado de frio e distante da real personalidade dos cubanos.
Toda saga da realização dessa obra – e de sua repercussão no mundo - é mostrada no documentário Soy Cuba, o Mamute Siberiano, de 2004, que marcou a estréia como diretor do brasileiro Vicente Ferraz. Em entrevista durante o Festival do Rio, em 2005, quando lançou seu documentário, Vicente dá sua opinião sobre o clássico cubano-soviético: “Soy Cuba era para ser um poema filmado em quatro esquetes sobre aquela ilha que acabava de se tornar o primeiro representante do regime socialista nas Américas. Porém, as lentes que registraram esse épico tinham sujeitos de outra formação cultural. Por isso, acredito que a questão da não-identidade do povo cubano foi um grande motivador para que o fracasso acontecesse”.
Soy Cuba chegou a ser re-exibido ao público cubano, na sala Chaplin, a maior de Havana. Segundo o roteirista Enrique Pineda, a reação quarenta anos depois foi outra, graças também ao documentário de Vicente Ferraz: “Era, enfim, a ressurreição do sonho de tantos trabalhadores, de toda uma nação, a transposição daquele que fora visto como um ideal falido. Foi como se o cinema voltasse a nascer pelo próprio cinema. Eu, particularmente não gostava do resultado do filme, mas a partir do documentário comecei a perceber valores essenciais”.
Para os interessados em entender a importância desse clássico, a boa notícia é a exibição do documentário Soy Cuba, o Mamute Siberiano durante o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, que começa nesta segunda-feira. A sessão acontece dia 27.07 na sala 1 do Memorial.
Confira a programação completa em: www.memorial.sp.gov.br.
Por Paula Skromov

