Provavelmente você já conhece esse enredo: diretor nascido no Brasil registra em um documentário a campanha eleitoral de um líder sindicalista latino-americano, que, pela primeira vez, foi eleito presidente de seu país. Essa breve apresentação poderia ser, por exemplo, a do documentário Entreatos, de João Moreira Salles, que teve como personagem o presidente Lula. Mas estamos falando de “Cocalero”, de Alejandro Landes.
O filme mostra a ascensão de Evo Morales durante a campanha presidencial e sua estreita relação com os cocaleiros bolivianos. Nele, o público pode conferir desde discussões políticas, entrevistas em programas de TV a momentos de intimidade de Morales, como ao cortar o cabelo, nadar, beber e brincar com os amigos.
Em muitas cenas, Evo demonstra estar muito à vontade com a presença da câmera, mesmo quando foi agredido verbalmente, em um aeroporto da Bolívia, por um cidadão contrário à eleição do presidente indígena. Mas, antes de ganhar a confiança de Morales, a equipe de gravação enfrentou alguns problemas como a desconfiança de que eles eram agentes da CIA.
O filme, que ainda não tem data para estrear no Brasil, contou com a participação brasileira na fase de pós-produção. As outras colaborações nesta reta final vieram também da Argentina, Cuba, Colômbia, México, Venezuela, Bolívia, Equador e Estados Unidos.
Cocalero foi o filme de estréia do diretor de origem brasileira e equatoriana Alejandro Landes e também o primeiro trabalho como produtora da cineasta argentina Julia Solomonoff, que foi assistente de direção de Walter Salles, em Diários de motocicleta.
Confira a entrevista exclusiva de Julia à Latina:
Cocalero é o seu primeiro filme como produtora. Como foi essa experiência?
Foi todo um descobrimento. Aprendi e descobri coisas novas da minha personalidade. Desfrutei muito o trabalho com o Alejandro, que é uma linda pessoa e um diretor com pouca experiência, mas com grande precisão.
Qual foi a reação dos bolivianos quando assistiram ao documentário?
Alejandro sempre quis levar o filme aos seus protagonistas, compartir o documentário com as pessoas que abriram as suas casas, suas vidas. É muito triste constatar que muitas equipes estrangeiras de filmagem vão, gravam a gente e depois não enviam o material, nem o exibem na Bolívia. É uma forma de abuso, de abuso do outro. Montamos duas telas gigantes no meio do Chapare e projetamos o filme ao ar livre para três mil cocaleiros. Evo Morales esteve presente. O povo olhava a tela com um misto de admiração e respeito… Nunca tinham ido ao cinema, e a essa surpresa ainda se somava ao reconhecimento das suas próprias paisagens, suas casas, seus rostos em uma tela gigante. Foi emocionante.
Como você enxerga o presidente Evo Morales? E a atual situação da Bolívia?
Acredito que Bolívia vive uma oportunidade histórica de reverter um círculo de pobreza e exploração. E Evo tem a enorme responsabilidade de liderar essa mudança, mantendo a unidade nacional. O gás pode ser a chave para o desenvolvimento econômico. Há muitas coisas urgentes para serem solucionadas e acredito que as ferramentas estão à mão, mas há muito, muito mesmo para fazer. Mas isso exige uma grande honestidade.
Você saiu de Rosário [interior da Argentina] e foi para Buenos Aires, depois foi viver em Nova York. Foi a paixão pelo cinema que motivou todas essas mudanças?
Sim. Estes movimentos aconteceram pelo desejo de crescer, trabalhar com cinema, estudar. E também pela curiosidade sobre o mundo. Elegi Nova York porque gostava muito do cinema independente do final dos anos 80. Lamentavelmente, muita dessa movimentação se extinguiu no final da década de 90, que foi justamente quando ressurgiu o cinema argentino e eu voltei a fazer as malas.
Como estava o cinema quando você saiu da Argentina? E hoje, como está?
Saí de Buenos Aires em 1995. No final dos anos 90, houve uma importante renovação do cinema argentino. Muito dos protagonistas deste movimento foram meus companheiros de estudos ou de trabalho. Acredito que as novas tecnologias e as escolas de cinema colaboraram para criar uma sensação de possibilidade, de imediatismo… Facilitaram a renovação. Acredito que agora o cinema argentino conquistou um certo espaço de prestígio internacional, mas ainda nos resta consolidá-lo com o público local.
Entre suas experiências como assistente de direção, você foi assistente de Walter Salles em Diários de motocicleta. Como foi este trabalho?
Foi muito mais que um trabalho. Foi uma aprendizagem, uma aventura, uma prova, uma experiência. Percorrer a América Latina, estudar, investigar e depois filmar com gente muito talentosa e apaixonada como Walter, Eric, Gael, Rodrigo… Foi tudo um privilégio.
Quando você soube que estava pronta para realizar seu primeiro longa-metragem, Hermanas? Como foi gravá-lo?
Uma coisa é acreditar que está pronta em um momento, mas a realidade é outra. Fazer um filme requer que um monte de elementos – criativos, financeiros, humanos, conjunturais - se encaixe. Eu acreditei que estava pronta para filmar em 2001, quando voltei de Nova York, com o roteiro debaixo do braço. Mas a Argentina estava atravessando uma crise muito profunda, e o filme teve de esperar até 2004 para ser realizado. Mas se isso para mim foi difícil, acredito que para o longa foi melhor. Trabalhei no “Diários de Motocicleta” todo o ano de 2002 e parte de 2003. E a partir de março de 2003 me dediquei, já com outra força, com outra confiança e com outra conjuntura nacional, a buscar fundos para Hermanas. Rodamos em 2004. Estreamos em 2005.
Como está o trabalho para seu próximo filme El último verano de la boyita? Qual é a história?
O filme se passa entre Rosário e Entre Rios. É sobre o final da infância, o descobrimento e o questionamento das definições entre o masculino e o feminino. É um filme que relata com humor e certa ingenuidade as dificuldades do crescimento, da transformação do corpo e das expectativas adultas sobre quem ainda é criança.
:: Veja mais sobre o filme no site: www.cocalerofilm.com.
Por Cláudia Gonçalves
