Del lado de allá,
a coluna de Alberto Ramos, diretamente da Espanha
Pierre Menard, autor do anúncio de um anti-gripal
O escritor Pierre Menard, protagonista de um conto de Borges, queria se colocar na pele de Cervantes para voltar a escrever Dom Quixote. O protagonista de La cáscara (2007, de estréia na Espanha) não se chama Pierre, mas Pedro, e seu objetivo é muito mais humilde: colocar-se na pele de um companheiro de trabalho, recentemente falecido, com o propósito de lhe roubar uma idéia para o anúncio de um anti-gripal.
La cáscara é uma co-produção entre Uruguai, Argentina e Espanha, ainda que o componente uruguaio ganhe de goleada: Carlos Ameglio, diretor e roteirista, é uruguaio e, com esse primeiro longa-metragem, quis expressar, segundo suas próprias palavras, “esse sentimento tão uruguaio em que fazer algo próprio é impossível”. Por isso, Pedro, antes de ter uma idéia própria, prefere roubá-la de um morto. E aqui surge o paradoxo: para conseguir o McGuffin terá que recorrer a seu engenho. Irá se convertir em um improvável Sherlock Holmes à busca de um Graal (perdão pelo cruzamento de referências, mas é que Grial se parece com gripal e… Bom, tá valendo); seu não menos improvável Watson, por sinal, acaba sendo um simpático rapaz com problemas para vocalizar. Juan Alari é o encarregado de colocar voz, gestos e, sobretudo, cara a Pedro: uma máscara (casca?) que oculta/mostra um cérebro medíocre. Neste sentido, a interpretação de Alari acaba sendo impagável. E está engrandecida pela fotografia de Juan Carlos Lenardi, de enquadramentos elevados à caricatura, como se o protagonista tivesse vergonha de revelar o queixo.
Diz Ameglio que La cáscara é um filme sobre “a busca da identidade” (algo que, pelo jeito, também é muito uruguaio). Talvez por isso não tenha querido deixar claro qual é a profissão do protagonista; está certo, é um criador publicitário, mas poderia ser especializado em redação ou em direção de arte. Fiquei inclinado a pensar que se trata do primeiro caso, ainda que em nenhum momento o vemos escrevendo nada: somente contemplar abobado uma impassível folha de Word em branco. No entanto, ainda que seja um incidente, é convertido em sucessor do trono de seu departamento. Nada que repreender: eu conheci a algum diretor criativo (assim é o título que lhe concedem) com a mesma aridez mental.
É que La cáscara transcende o que é uruguaio: ainda que os publicitários do filme trabalham em Montevidéu, podiam ser de uma agência de Barcelona, Madrid ou Buenos Aires, por exemplo. Não sei se Carlos Ameglio já se dedicou à publicidade, mas eu apostaria meu dedinho esquerdo que sim. Por uma vez, os criativos não aparecem retratados como yuppies niilistas e/ou executivos com gravata; isto não significa que a nova imagem resulte mais favorecedora. Mas é mais reconhecível. O que posso assegurar sem medo de perder nenhum dedo é que pelo menos um dos produtores, o espanhol Luis Miñarro, é macaco velho em publicidade e já trabalhou em longas-metragens como o quixotesco Honor de cavalleria (Albert Serra, 2006) ou La silla (2006), temerário experimento de outro publicitário o argentino residente na Espanha Julio D. Wallovits.
Mesmo em menor grau, La cáscara também é um experimento arriscado e, como tal, é preciso aproximar-se dele: com precaução, mas sem medo de se queimar. Como diria seu protagonista, “o que pode dar errado?”.
Tradução: Camila Moraes.
