Nascido em 1981, no norte da Colômbia, Ciro Guerra é um dos principais talentos do cinema colombiano dentro do atual panorama do país – que completa apenas quatro anos da lei de incentivo à produção nacional.
Sua obra prima – La sombra del caminante (2005) – é considerada um debut e tanto: percorreu 52 festivais em 45 países e arrematou nada menos que 15 prêmios. Agora, como era de se esperar, estão todos – profissionais e público – de olho em seu próximo trabalho, Los viajes del viento, atualmente em fase de pré-produção.
Ciro contou com detalhes à Latina como foi o duro processo de nascimento de seu primeiro filme. E confessa que, para o futuro, a meta é “fazer cinema sem morrer de fome”. Confira a entrevista.
Quando surgiu em você o desejo de fazer cinema e como se deu sua formação na área?
Sempre gostei de contar histórias. Tentei fazer isso de muitas maneiras, escrevendo, declamado, desenhando. Aos 12 anos descobri o poder do cinema e, desde este momento, soube que era a isso que queria me dedicar.
O processo na Universidade Nacional foi muito bonito, porque tive a oportunidade de conhecer muitas pessoas com as que continuo trabalhando. Também teve seu encanto isso de passar vários anos refletindo e debatendo sobre cinema de uma maneira muito primária, muito básica, mas muito sincera e iluminadora. Foi graças a isso que pude juntar os elementos necessários para fazer meu primeiro longa-metragem.
Quais são seus principais trabalhos antes do seu primeiro longa, A sombra do caminante?
Fiz vários curtas-metragens, documentários, animações. Nada muito relevante.
Como se deu todo o processo de realização de La sombra del caminante? Você esperava tanto sucesso?
Eu já havia passado pelo curta em vídeo, mas me dei conta que, como gênero, não me satisfazia por completo, porque certas coisas que busco são mais características do longa-metragem. Vi a oportunidade e disse: “Vou fazer um longa e ver quanto tempo isso me toma, porque sinto que, se não faço isso agora, depois vai ser muito difícil”. Isso foi em 2000, e então trabalhei a idéia que tinha para o roteiro. Pensei que era mais fácil, para dizer a verdade. Estive a ponto de rodar um ano depois de começar a escrever, mas fracassei, porque o material era muito ruim. Um dia antes da gravação, nos reunimos em equipe, nos olhamos e dissemos: “Isso está muito ruim”. Engoli meu orgulho e me sentei para escrever mais um ano. Exatamente um ano depois, fizemos o filme. Durante todo esse tempo, foram 14 tratamentos.
Rodamos o filme com uma verba de entre seis e oito milhões de pesos [colombianos, o que equivale ao custo de três a quatro mil dólares]. Isso implicou condições de filmagem incrivelmente duras para as pessoas e particularmente para um processo tão longo como foi o nosso. Você escuta falar de gente que filma uma ou duas semanas; La sombra del caminante teve 48 dias de filmagem efetiva. Filmamos todo o tempo que podíamos. Foi muito tenso, perdemos muita gente durante a filmagem por trabalhar dessa maneira, mas a coisa foi pra frente não sei como.
Logo me sentei para editar o material durante quatro meses, até ter um primeiro corte. Durava dois horas e cinqüenta minutos. Eu não sabia que fazer, então levei o resultado para [o produtor e realizador colombiano] Jaime Osorio, e ele me disse: “Aqui há um filme, mas vamos ter que cria-lo a partir de tudo o que você fez”. Demoramos mais um ano e meio editando.
Durante esse processo, quando tínhamos chegado a um corte de uma hora e 40 minutos, o Jaime enviou o filme aos festivais de San Sebastián e de Tolouse. Já tínhamos vindo do rechaço do Ministério de Cultura nas etapas do roteiro, de pós-produção e de distribuição, então pensei: “Vai ver que isso não serve mesmo de nada. Têm razão”. Mas ao final nos classificamos para o Cine en Construcción, que é uma iniciativa a que se enviam filmes latino-americanos de largo metragem sem recursos para chegar sozinhos à cópia em 35 mm. E são enviados ao redor de 50 ou 60 filmes já produzidos, dos quais são selecionados apenas seis. Logo em seguida, esses filmes são apresentados nos festivais de San Sebastián e de Toulouse a distribuidores, produtores, canais e representantes de outros festivais. Enfim, a todo mundo que possa contribuir para que o filme seja pós-produzido e distribuído.
Tivemos uma recepção tremenda. Ganhamos, além disso, um prêmio em que as indústrias técnicas da Espanha se unem para impulsionar um filme. É dizer que a filmagem que tivemos foi paupérrima, mas a pós-produção foi excelente. Polimos o filme em todos os sentidos. Arrumamos vários defeitos – coisas que não estavam apresentáveis por filmar como filmamos.
Como foi a reação ao filme na Colômbia e no exterior?
Muito positiva. O filme percorreu um longo caminho – que ainda continua – rodando pelo mundo, encontrando novos públicos. Foram até agora 52 festivais em 45 países, dezenas de milhares de pessoas viram o filme, e recebemos 15 prêmios – coisa que não podíamos imaginar quando estávamos com a mão na massa. De maneira lenta, mas muito segura, o filme foi encontrando espectadores, ainda que sejam poucos numericamente, e isso lhe deu um grande valor. E também nos permitiu seguir fazendo cinema, que é o mais importante.
De que se trata seu novo prometo, Los viajes del viento?
É a história de uma despedida, no contexto da música da costa norte da Colômbia.
Quais são seus planos para o futuro como realizador?
Tratar de fazer filmes sem morrer de fome.
Por Camila Moraes
