
Rubén Mendonza, 28, é o realizador colombiano que acaba de emplacar um projeto de longa-metragem na seção L´Atelier do Festival de Cannes, que acontece em maio. O nome do filme, ainda não filmado, é La sociedade del semáforo (saiba mais aqui).
Jovem, livre e autor de vários curtas bastante premiados, Rubén trabalha também com publicidade e faz parte de um coletivo de profissionais criativos, ligados ao audiovisual, cujo QG é a sede da produtora bogotana Rhayuela.
Leia abaixo a entrevista exclusiva de Rubén a Latina:
O que você acha da formação de cineasta na Colômbia? Como se formam as pessoas na área no país?
Para mim, o cinema é a casa dos sem-casa. A vocação de todos os que não temos vocação. De nós que temos o sintoma da eterna curiosidade. O cine, em grande, é qualquer tema, qualquer pessoa, quaisquer pessoas. Assim que a escola pode ter um papel importante, mas não fundamental. No caso da Universidade Nacional, onde estudei, agradeço todas as Historias da Arte, Historias do Cinema, Dramaturgia, Literatura. Eu acredito por convicção, assim como acredita a Escola de Cinema e Televisão da Nacional por escassez, que o cinema é outra coisa. Não só as lentes. Querer ver, saber o que se quer ver. Em quanto à formação de cinema, creio que vem desde que a pessoa se interesse por ver. Desde que a curiosidade por qualquer personagem, pessoa ou coisa nos dê uma vontade infinita de registrar algo, de qualquer maneira.
Quais são seus principais trabalhos como realizador cinematográfico? Tem algum que te pareça mais importante?
Eu gosto de todos. Não sei se são bons ou importantes. O que eu gosto é de criar. Escrever, preparar, filmar, armar. São verbos preciosos. Divulgar e vender já não levo tão bem. Creio que são aspectos muito importantes, mas para mim parece que contaminam demais o processo cinematográfico. Mas é assim. Por isso, o bom é trabalhar em equipe, para dividir responsabilidades. Suponho que meu trabalho mais importante seja La cerca, pelas portas que abriu, por ter sido seleção oficial em Cannes e em vinte e tantos outros festivais. Mas, para mim, cada novo trabalho termina sendo o mais importante. Não o melhor, porque na verdade essas categorias, na arte, não têm muito sentido. Mas cada vez me alegra mais encontrar gente nova, evitar atores, evitar grandes estruturas de produção, essas coisas. Entre mais se afina essa engrenagem, mais importante me parece um trabalho.
Você trabalhou com outros cineastas colombianos, como o veterano Luis Ospina. Como foi essa experiência?
Luis Ospina foi uma das figuras mais determinantes da minha vida. Passei dois anos na casa dele, editando dois de seus filmes. Dois labirintos, autênticas pós-graduações de montagem e cinematografia. Ele me deixa opinar, pensar, debater, mas basicamente o que eu mais gosto é de seguir as ordens que dá. É um grande realizador, um grande cérebro, uma grande pessoa, um grande obstinado. Foram documentários que somam 1500 horas de edição, e algumas horas estão entre as mais interessantes e felizes da minha vida. Luis Ospina, por outro lado, é fundamental no que decidi que o cinema seria para mim. Muito mais que a universidade.
Como você vê a atual fase do cinema colombiano, impulsionada pela criação da Lei de Cinema?
Pois bem. Mas não mais que isso. O cinema na Colômbia vai por ondas. Essa é outra nova. Mas, mais que um mar, o cinema colombiano é um naufrágio. Por isso, sempre se chama “Novo cinema colombiano”. Isso é muito suspeito. A Nouvelle Vague francesa foi nova durante um tempo, o Novo Expressionismo alemão também foi uma etapa, o Neo-realismo italiano também. Logo, os cinemas desses países passam a se chamar de outra maneira. O cinema colombiano sempre se chama “novo”, e isso é muito suspeito. Mas é liberador com respeito à obra cinematográfica em geral. Sabendo que se está fazendo para que exista, não porque se vai fazer algo com ela.
O que você anda fazendo em paralelo aos seus projetos pessoais de cinema?
Vivendo. Cada vez mais, estou mais interessado na vida que no cinema.
Fale sobre seu projeto de longa-metragem selecionado em Cannes.
É a história de um indigente obcecado com alterar a duração de um semáforo vermelho, o tempo que quiser. Para montar atos mais longos com artistas, malabaristas, mendigos e doentes que ganham a vida no semáforo. Esses atos começam no circense e terminam na anarquia total, em uma grande festa anárquica. Tem mais de 10 prêmios internacionais e ainda não foi filmado. Isso também é suspeito.
Por Camila Moraes
