
Um dos principais nomes da crítica cinematográfica na Colômbia, Augusto Bernal cedeu uma entrevista ao jornal local El Tiempo, em que comentou as falhas, ao seu ver, da atual fase do cinema colombiano – considerada por muitos um “boom”, mas, por ele, algo muito menos promissor, se não se buscar criar uma cinematografia ao invés de simplesmente fazer filmes.
“Há grandes filmes, mas não cinematografia”, declarou o diretor da escola de cinema Black María, de Bogotá. “Ouvi dizer que uma cinematografia é o reflexo de um país maduro, mas somos um país que apenas está entrando na puberdade. E a isso se soma o fato que produzimos não qualidade, mas quantidade. E as transformações da tecnologia, porque a facilidade de fazer um filme fez com que se perda rigor, profissionalismo”.
Confira trechos da entrevista.
El Tiempo: Que filmes do último ano você destacaria?
Augusto Bernal: De 18 filmes, nenhum é resgatável. Tem um que me causa enorme curiosidade. Não sei se foi mal lançado ou promovido. Foi Apocalipsur. Esteve em festivais de categoria e tem um prêmio em Cartagena, mas não teve disposição do público. (…) Satanás e Paraíso travel, os dois grandes pilares do Hollywood colombiano, ultrapassam os orçamentos de qualquer filme colombiano, mas, se se olha os prêmios e a justificativa em festivais e propostas, não aportam nada. Perro como perro, sim, conseguiu tudo isso.
O público se queixa que o cinema local está obcecado com um único tema…
As pessoas dizem que tem muitos filmes de violência, mas o país tem que se olhar para se justificar. Tem que deixar de ser um vampiro, que não se olha no espelho porque não se vê. Enquanto não nos vejamos, não vamos fazer cinema. Somos um povo violento. Vivemos da violência. Me pergunto o que passou com Heridas, de Roberto Flores, que é uma crítica à segurança democrática e não o deixaram sair, porque causa dano à imagem do país.
Qual é a grande debilidade da nossa nascente cinematografia?
Educação audiovisual no sentido geral da palavra. Que os cineclubes têm que ser mais rigorosos. Que a crítica tem que ser mais honesta. Que os diretores têm que se preparar. Que as políticas audiovisuais têm que ser mais pontuais. Acreditamos que estamos fazendo um grande cinema, quando na verdade não.
O que é um bom exemplo de compromisso?
Jaime Osorio com Confesión a Laura. Alberto Restrepo con La primera noche. Os filmes de Mayolo. Poderia estar nessa lista o Luis Ospina com Un tigre de papel, que é uma boa sátira. Mas o público colombiano detesta pensar. E quando pensa, dorme.
Entre as pessoas que estão trabalhando, quem merece que se fique de olho desde já?
Rubén Mendonza. Que disciplina. Conhece sua história. É puro ouro. É capaz de ver as pessoas que não interessam a ninguém e de encontrar beleza no que é feio. Tem um olho incrível. De Spiros, que foi aluno da Black María, tem que esperar como vai funcionar dentro de Hollywood. Espero que Ciro Guerra consiga encontrar sua verdadeira dramaturgia. A outra é a geração de 40 anos. Carlos Moreno. Óscar Campo, que certamente seguirá fazendo documentários. Alberto Restrepo, que está para lançar seu segundo longa. Libia Estella Gómez. Roberto Flores. Há uma geração interessante que vem da costa.
Leia a entrevista completa na página do El Tiempo.
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